Castelo de cartas

Chegou o dia,

em que tudo desmoronou.

Hoje chegou o dia, o dia em que fui despedido.
Foi-me hoje comunicado que a empresa irá entrar em insolvência e que irão extinguir o meu posto de trabalho, vulgarmente chamado de “ser despedido”.
O meu último dia será dia 28 de fevereiro de 2026.

Embora tenha sido um final anunciado, bater de frente com esta realidade está a ser desafiante.

Não vou negar, estou com medo. Estou com medo porque não sei para onde me virar, não sei onde está a terra, não sei onde está o norte, onde me agarrar ou como ultrapassar esta fase.

Sinto-me frustrado. Parece que estou numa maré de azar que tarda em mudar, desde que o ano começou.

Sou duro comigo, mas sinto que não sou bem-sucedido. Sinto que não consigo alcançar o que ambiciono, o que desejo, o que sonho.

Desmontando e simplificando o meu raciocínio, há três níveis de sucesso: o material, o profissional e o verdadeiro.

Os primeiros dois estão diretamente relacionados. O sucesso profissional vem do reconhecimento direto que retiramos da nossa profissão, da validação dos nossos colegas, dos nossos feitos enquanto profissionais, ou meramente daquele obrigado mais sincero. Enquanto que o sucesso material manifesta-se com aquisições materiais, como a casa dos nossos sonhos, aquele carro que sempre quisemos, aquela televisão, aquela viagem. É talvez o sucesso mais fútil, mas que nos dá uma sensação de prazer diferente de qualquer um dos outros.

Mas, para mim, o verdadeiro sucesso, tal como eu já defendi no meu desabafo intitulado “Sucesso”, é o amor.

Acho que o verdadeiro sucesso é chegar a casa, abrir a porta e ter alguém para abraçar depois de um dia de trabalho longo. É acordar e poder ficar a olhar para ti enquanto ainda dormes. É poder ouvir-te rir. É poder consolar-te as lágrimas. É poder dançar contigo.

Acho que não há melhor parâmetro de sucesso do que o amor verdadeiro.

A verdade é que, atualmente, não me sinto bem-sucedido. Sinto-me realmente à deriva, sem ver a linha da costa à distância.

Com a notícia de hoje, fui-me bastante abaixo, porque é fácil entrar numa espiral negativa e considerar-me um fracassado. Começo a olhar para mim e, profissionalmente, não tenho nada de relevo; materialmente, também não acho que tenha nada de especial; e, em termos de amor… bem, não quero entrar por aí.

Tenho facilidade em começar a lamentar-me pelas coisas que me acontecem… ou melhor, que não me acontecem.

Mas a verdade é que não me posso deixar ir abaixo. Tenho que lutar para dar a volta e construir o meu futuro. Tudo seria mais fácil se tivesse alguém ao meu lado, mas essa pessoa vou ter que ser eu.

Tenho que me fortalecer para ser dono de mim próprio, para conseguir dar a volta a esta fase. Tenho que conseguir valorizar as pequenas coisas do dia a dia: os pequenos sorrisos que consigo ir arrancando aqui e ali, ou um ligeiro obrigado de um atarefado na passadeira.

Tenho que aprender a ser mais justo comigo. Tenho que conseguir ser exigente sem ser destrutivo.

Todos estes desafios seriam mais facilmente ultrapassados se tivesse alguém a quem abraçar ao final do dia, não tenho dúvida. Mas, se não tenho, será isso fracasso meu? Talvez até seja. Mas tenho é que ser forte e pensar que talvez ainda não tenha chegado a minha vez. Talvez ainda não esteja no momento certo para viver isto com alguém.

Estou a tentar ser forte para encontrar algo de positivo nestas situações que ando a passar. Tentar o “cliché” de ver o positivo nestes degraus que me estão a fazer tropeçar.

Não prevejo vejo tempos fáceis no futuro próximo, mas, como diz a sabedoria popular: “depois da tempestade vem a bonança”. Espero conseguir dar a volta.
Espero não… vou dar a volta!


Chegou o dia,

em que tudo desmoronou.


Como um castelo de cartas, 

que o vento soprou, 

o que tinha desabou.


Como um castelo de cartas, 

tudo o que tinha, 

se amontoou.


Como um castelo de cartas, 

baralhado, 

ficou.


Como num castelo de cartas,  

no final,

só o Ás restou. 


 Keep your head up - Ben Howard

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