Uma mesa a três

 Uma mesa a três

(Noite)

É Janeiro. 

Um vento frio entra pelos cachecois, 

sopra-nos a alma. 

A respiração escaldante aquece-nos a mão.

Faz noite, está escuro, mas não está sombrio. 

A luz das estrelas faz-se ver,

a Lua mostra-se amarela. 

Há movimento na rua, cheira a castanhas!

Observa-se a pressa das pessoas,

Espiam-se os seus hábitos.

Vê-se o cansaço das suas almas,

correm as crianças. 


(Espaço)

Abre-se a porta,

O chão chia. 

- "Sacode os sapatos". 

Está quente, ouve-se a lareira a crepitar.

Uma melodia deixa-se dançar, 

-"Pus uma música que sei que vais gostar".

Sente-se um aroma apaixonado, a sair do forno, 

um perfume a laranja com um ligeiro toque de salgado,

enche a sala. 

(A lareira estala!)

A mesa está cuidadosamente posta. 

Ao centro da mesa uma vela arde carinhosamente, deixando-se enternecer pela conversa. 

Dois copos de vinho estão servidos...


(Eu)

Visto-me cuidadosamente, 

(quero estar à altura).

Calças bombazine escuras, 

uma camisa (mereces), 

e uma camisola clara, elegante e ternurenta,

aquece-me. 

Estou jubiloso, quero estar contigo.

Estou nervoso, não quero falhar.

Estou ansioso, quero que resulte. 

Mostro-me confiante, 

tremo por dentro.

Penso no mar para me acalmar. 


(Tu)

Escolheste o vinho.

Estás deslumbrante, 

Estás estonteante, 

Vibrante!

Elegante como sempre,

vejo-te como se fosse a primeira vez, 

Num vestido comprido que faz do espaço, que é nosso, teu. 

O teu cabelo ondula ao ritmo de cada palavra, 

As tuas mãos falam como se dirigissem uma orquestra, 

Os teus olhos brilham, como se a Lua lá de fora, estivesse dentro. 

E o teu sorriso...

O teu sorriso é teu,

mas espero que um dia seja meu.


(Nós)

Encarnada, 

como uma rosa, 

brota a conversa. 

Estamos em sintonia, 

deixamo-nos levar, como um barco naufragado no mar.

Mas ao contrário do naúfrago, 

é aqui que queremos estar, 

sem rumo, 

sem pressas, 

sem planos.

Não nos faz sentido planear, o que não é planeável. 

Só temos que aproveitar o vento que bate nas nossas velas, 

que nos leva no rumo que temos que seguir. 

Vimos terra à distância, 

mas não a queremos. 

Queremos o desconforto de nos conhecer, 

de nos explorar, 

de nos fragilizar, 

de nos apaixonar!

Queremos que esta noite dure tanto, 

que nos faça esquecer que somos da terra. 

Queremos que esta noite dure tanto, 

que nos faça esquecer os nossos nomes. 

Queremos que esta noite dure. 

Dure o que durar.


Eu, 

Tu,

Nós, 

Uma mesa a três.






*Deixei uns links "escondidos", nos dois primeiros titulos, que dão mais profundidade ao que imaginei, pensei, senti. Que acho que devem ser ouvidos enquanto se atravessa um pouco das minhas fantasias. 


29/01/2026 

Resolvi pedir à AI para criar uma imagem que representasse o meu poema, achei piada, deixei aqui:






Comentários

Mensagens populares deste blogue