Peixe grelhado
Sinto que estou num momento de viragem na minha vida, espero que para melhor, mas sinto que, a qualquer momento, vou desmoronar.
Sinto que estou instável, volátil, inconstante, sem controlo sobre mim mesmo.
Não me sinto triste nem nada que se pareça, apenas me sinto vazio. E, quando estamos vazios, temos tendência a tentar preencher-nos com diferentes estímulos: pessoas, trabalho, música, o que for.
O problema... O problema é que estamos a forçar ligações e emoções que, se calhar, não estamos capazes de suportar. É como encaixar a peça do puzzle na posição errada: a peça até pode caber, mas, no final, a imagem fica desvirtuada, sem sentido.
Dou por mim, várias vezes por dia, a pensar em realidades alternativas, no "e se...". E, quando mergulho nestes pensamentos, desconecto-me tanto da realidade que parece que viajo para uma dimensão tão profunda, tão distante e tão utópica que não me apetece voltar à realidade.
Consigo viver essa realidade de forma tão real que chego a sentir os cheiros, ouvir os sons, respirar, viver o batimento do coração nesse mundo.
Normalmente, o que me suscita este navegar profundo são situações extremas de descontrolo, desconforto, indecisão ou algum arrependimento. Começo por imaginar o que podia ter dito, o que poderia ter feito e como devia ter agido; depois começo a construir e a manipular toda uma narrativa que me é favorável e onde o que queria que tivesse acontecido acontece efetivamente. Dou por mim a imaginar esses cenários incontáveis vezes e a prolongar e a desenvolver como se de um livro de ficção se tratasse.
Este ciclo é viciante, porque, enquanto estou a viajar, estou tão feliz, tão realizado e tão preenchido que quero constantemente voltar a sentir tudo o que senti, isto porque, na realidade, ultimamente, não sinto esses sentimentos na sua totalidade.
Se pudesse descrever a minha vida neste momento, diria que é como uma sinfonia gastronómica que acaba insossa. Ou seja, há de tudo um pouco, há vários ingredientes, mas está em falta o sal que une todos os sabores e os transporta no paladar da vida. Acho que qualquer pessoa consegue entender ao que me refiro. Podemos ter os melhores ingredientes do mundo, uma carne maturada, um azeite gourmet, uma batata mille‑feuille, mas, se falta sal... falta tudo. E sim, sinto que falta o sal na minha vida.
Por vezes, dou por mim a escrever, em poesia (se é que se pode chamar poesia aos versos que construo), apenas um pedaço dessa realidade que é inalcançável, mas que é tão boa que quero pura e simplesmente partilhar. E, ultimamente, tenho escrito bastante, mas apenas para mim, para me permitir voar e sentir esses cenários um pouco mais reais. E, estranhamente, quando os escrevo, sinto que os vivo de forma tão mais real que, só por estarem escritos, parece que se tornam efetivamente reais. É estranho, mas satisfatório.
Atualmente, não estou a passar um momento nada fácil profissionalmente, está a ser mesmo difícil, está a deixar-me ansioso. A minha empresa está mesmo a falir, e nunca sei qual é o meu último dia... Obviamente que já estou a tentar, a todo o custo, saltar fora, a mandar inúmeros currículos, a ligar a pessoas, a tentar mexer uns cordelinhos — mas odeio tanto pedir cunhas — a tentar de tudo. Mas a verdade é que estou com "medo" do que aí vem; há um/dois meses a minha vida estava bem melhor e, de repente, parece que há um sismo e tudo treme.
Estou desiludido com algumas pessoas, triste com outras, mas isso faz parte, aprendemos sempre algo com estas situações. E uma das pessoas que mais me está a desiludir é o meu "patrão". Tive uma oportunidade de sair em outubro, a receber mais, a fazer mais e numa empresa mais estável. Fui falar com ele a dizer que me ia embora e ele suplicou-me por tudo para que ficasse, a dizer que eu estava a fazer um ótimo trabalho, que era fundamental, que me igualava a proposta e que a situação da empresa estava a dar a volta... e, por um momento, parecia que isso mesmo estava a acontecer. A verdade é que, pouco tempo depois, nem aumento, nem a situação da empresa melhorou... piorou. Perdi uma oportunidade e agora vejo-o a abandonar o navio e eu aqui dentro a não conseguir sair. Mas, com este episódio, aprendi que, no mundo do trabalho, na hora da verdade, é cada um por si. Não volto a cair nesta.
De resto, sinto que me estou a afastar um pouco dos meus amigos de sempre, os que sempre foram os meus melhores amigos, mas não estou preocupado, sei que é uma fase. As amizades, como qualquer relação, são sinusoidais, como as ondas, e há momentos altos e momentos baixos; às vezes uns estão em cima e os outros em baixo. É raro — e não é bom — estarmos sempre na mesma fase ao mesmo tempo, porque pode ser épico se estivermos todos em cima, mas catastrófico se estivermos todos em baixo, porque deixamos de nos esforçar pelo outro. E eu, neste momento, estou numa fase em baixo nesta relação, estou um pouco farto das conversas e das rotinas que tenho com eles, dos programas e tudo. Mas faz parte, está tudo bem e, daqui a umas semanas, está tudo como antes. Isto não me preocupa.
Felizmente, tenho muitos amigos e tenho-me aproximado mais do meu grupo da Praia Grande, gosto mesmo muito deles e tenho estado bastante com eles. Uma vez por semana, no mínimo, temos ido beber um copo ao final do dia (mesmo com esta chuvada toda) ao quiosque à frente do Liceu Camões; chamo-lhe o "Quiosque dos Amigos", e já todos adotaram o nome. É mesmo bom, porque a nossa amizade está a ficar mais forte que nunca, e eles são mesmo boas pessoas. Adoro o Eduardo, adoro a Mia, adoro o Afonso. Fazem-me mesmo bem! Têm sido um pouco do sal que tenho sentido falta ultimamente.
No sábado passado, acordei e apetecia-me tanto comer peixe grelhado que mandei mensagem ao Eduardo a dizer:
- "Queres almoçar?"
-"Bora!"
- "Mas quero um sito barato, apetece-me peixe grelhado, alinhas?"
-"Sabes que peixe grelhado e barato não combinam não sabes?"
-"Yes, tens razão"
Acabámos a ir almoçar só os dois ao restaurante do Saisa. Pedimos umas amêijoas (que estavam ótimas e de dose gigante), um robalo grelhado para dois, que veio com batata cozida e feijão‑verde (adorei aquele feijão‑verde), um vinho branco e acabámos com dois pudins, café e uma aguardente velha... Não foi barato, não; ele tinha razão. Sessenta e dois euros a cada... Mas, honestamente, não foi caro, foi só simplesmente bom poder passar tempo de ótima qualidade com um grande amigo meu, só os dois a falar da vida, e por isso até foi barato. Recomendo, às vezes, não se olhar a preços se isso nos puder trazer recordações e momentos incríveis, como foi o caso.
Acabei esse dia no Quiosque dos Amigos com o Dardo, a Mia, o Afonso e, depois, a jantar com os últimos dois e mais o Carlos no Floresta da Estefânia, uma simples e boa tasca portuguesa, a comer pratos típicos "tugas" — como os lagartos — e a beber vinho de pressão e a dita "jola" e "amarguinha".
Foi um dia ótimo, "cheio de sal", no meio de um mês muito insosso... Estou mesmo agradecido por esse dia.
Comecei a escrever este pequeno desabafo apenas para deitar para fora a "solidão" e o "vazio" que tenho sentido nos últimos tempos e acabei a recordar um grande dia que tive no meio deste mês. Por vezes, temos só que nos focar nas coisas boas, por mais pequenas que elas sejam, para que fiquemos a sentir‑nos melhor e com um sorriso na cara... tal como eu estou agora.
Quando as coisas parecem que não fazem sentido, só temos que ir almoçar um peixe grelhado com um amigo.
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