Não sei bem por onde começar.
Não sei bem por onde começar.
Escrevo para me aliviar, para me tranquilizar, para ficar bem comigo mesmo. Não escrevo a pensar que tu vais ler, mesmo sabendo que irás ler. Mas estou bem com isso, gosto de escrever sabendo que tu me vais ouvir. Sempre gostei de escrever para ti e por ti.
"Vai-te tratar!", "Resolve esses macaquinhos!" ou "Foste só mais um..."
Estas palavras ecoam na parte de trás da minha cabeça desde que as ouvi.
Não acho que as palavras tenham sido injustas, longe disso, mas deixaram destapadas, abertas, ao relento, todas as feridas que, com muito tempo, tentei sarar.
Sou uma pessoa de amor, amor fácil, sou uma pessoa que ama com toda a força do mundo, que faz da mais pequena conexão humana o maior fairy tale da Disney.
Mas falho muito, mesmo muito. Porque sou uma pessoa que está ferida, está desapontada, que está na defensiva com o amor.
A minha maior ambição, ao dia de hoje, é encontrar o amor verdadeiro que, embora me possa magoar, não vai desistir de mim, não me vai desiludir, que me abrace e... e que não me deixe ir.
Que não me deixe ir porque conheceu outra pessoa, mas que todos os dias acorde e escolha viver comigo, que me ajude a crescer, que me ajude a ultrapassar todos os receios que tenho, que me ajude a arrumar os macaquinhos todos na cabeça, porque preciso de ajuda a arrumar o sótão.
Hoje estou como o tempo: cinzento, frio, agitado.
Há dias assim, dias em que nos sentimos mais desamparados, mais sozinhos.
Ambos sabemos porque estou assim. Porque falhei... falhei novamente.
Eu tenho este grande problema: já amei muito alguém... mesmo muito, com todas as forças do universo, mas essa pessoa um dia acordou e escolheu outra pessoa em vez de mim.
Esse dia, ainda hoje, me traz das maiores dores que alguma vez senti. Traz-me toda a dor física e emocional que uma pessoa não devia alguma vez sentir. Esta dor desfaz-me em cactos, essa mágoa faz-me sentir perdido, esta dor corrói-me de uma maneira tão violenta que é impossível esquecer.
Já não a culpo, já não lhe guardo qualquer tipo de rancor, nesse aspeto acho que estou bem resolvido. Mas o que senti, nunca mais me vou esquecer, fiquei cicatrizado.
É como se tivesse sido alvejado; posso até ter perdoado a quem me apontou a pistola, posso já não sofrer por causa dessa pessoa, mas não quero voltar a ser alvejado.
E no que ao amor toca, a bala é o romper unilateral de uma relação, é o fim de algo que tanto gostamos e tanto lutamos, só porque a outra pessoa acordou e não sentiu que nos devia escolher outra vez.
Agora, todas as relações são um desafio. Sempre foram. Mas para mim, são ainda mais.
Sempre que conheço alguém, começo na defensiva. A carga emocional está baixa... defendo-me e tento defendê-la. Não me quero desiludir, não a quero desiludir.
Não me quero desiludir, porque já sofri bastante. Não a quero desiludir porque não quero alguma vez fazer com que alguém passe por um milésimo daquilo por que passei. Não quero, JAMAIS, ser o motivo de qualquer sentimento atroz, depressivo, desconcertante como eu senti. Não quero. Porque a única coisa que é capaz de me magoar mais do que ser alvejado é eu ser o motivo de alguém passar pelo que eu passei. Não quero!
O amor é para ser uma coisa emocional, mas o meu emocional já me falhou. E eu não quero falhar novamente.
Por isso, para me proteger e para te proteger, levanto barreiras, coloco obstáculos, provoco desafios, faço testes. Já o faço quase de forma inconsciente, irracional.
"Porquê?" perguntas.
– Porque o amor não vai ser fácil, vão ser desafios e a vida vai causar-nos muitas dificuldades. E eu quero ter a certeza de que a pessoa que estiver ao meu lado me escolhe todos os dias – todos os dias – para sempre. Acredito que essas barreiras irão provocar um crescimento na relação mais lento, certamente, mas que eventualmente irão servir de peneiro de pessoas, separando as que me irão escolher todos os dias das que não. E fortalecer estruturalmente a nossa relação.
Porque, como disse ao início, para mim amar e gostar de alguém é fácil, mas suportar a desilusão, a raiva, a frustração, a dor, a tristeza de um dia acordar e não ser mais a escolha dessa pessoa, para mim isso é dificílimo, impossível até.
Por isso, se estás aqui e vens do meu passado, só te posso pedir desculpa.
Peço-te desculpa porque, embora tenha explicado, dentro dos possíveis, o que me vai nos sentimentos, sei que o que faço e te pedi não é o mais correto nem o mais justo. Mas acredito que, depois de leres um pouco do que me vai na cabeça, te faça um pouco mais de sentido, sentido suficiente para que me perdoes e que recuperes por mim o carinho que eu garantidamente guardo por ti.
Se quis estar contigo, e me deixei levar por ti, mesmo criando as ditas barreiras, foi porque me foste mesmo muito especial. Contam-se pelos dedos de uma mão (nem tantos) as pessoas a quem me deixei sequer levar a conhecer. E se és uma delas, acredita, foste e és-me muito especial.
Agora, se vens do futuro, peço-te desde já desculpa.
Peço-te desculpa, porque vai ser difícil, não sou fácil, não vou ser fácil. Mas quando o amor vencer e conseguir baixar as barreiras, podes ter a certeza de que vou escolher-te a ti todos os dias da minha vida.
Um dia iremos acertar!
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