Mar


Como se explica o que é amar
a alguém que nunca viu o Mar?



À distância,
apresenta-se.
No murmurar das ondas,
mostra-nos a calma.
Numa respiração lenta e suave,
de olhos fechados,
deixa-te levar...

Numa inspiração ele te puxa,
tudo te atraí.
Subitamente estamos em suspenso,
tudo pára.
Numa expiração,
ele te devolve,

É uma dança íntima,
não temos como controlar.
Somos privilegiados de o ter,
de o poder navegar.



Cheira a maresia,
sentes a sua presença.
Respira fundo...
És tocada pelo seu sopro,
uma frescura ardente
entra-te pelo corpo.

É penetrante,
sentes-te desperta,
voltas a ter mundo,
acordaste do sono profundo.



Abre os olhos,
estás de frente para ele,
não sabes o que vês.
Assusta-te não ter fim,
um horizonte sem porquê.

Não percebes a sua cor —
não tem.
É um espelho vivo,
reflete o que tens.

Escuro quando tens receio,
luminoso quando estás presente,
límpido quando confias
e te deixas ir com a corrente.



Com a mão em forma de concha,
agacha-te.
Apanha um pouco do seu sangue,
mete-o na boca.
Sente o frio do seu corpo
a descer pelo teu.

Não tenhas medo,
não faz mal.
Consegues sentir o sal?

É o suspiro de quem se deixou tocar,
são as lágrimas
de quem já tentou amar.

Sentes o ardor?
É o aperto
de quem já sofreu por amor.



Nele, sentes-te à deriva;
longe dele, arde o desejo.
A sua imensidão majestosa
atrai o mais céptico dos descrentes.

Num ritual de cortejo,
o mais louco é desafiado,
a alma mais corajosa treme
e quem não lhe tem respeito,
por ele é levado.

Dá-lhe a mão,
envolta no ritmo,
cria-se conexão.
Abraça-o, não o deixes ir
nele flutuas, inteira,
sem medo do abismo.

Encara-o de frente,
é preciso coragem,
não é apenas uma miragem,
é real,
faz a mala, aceita a viagem.

O coração acelera,
sentes união,
envolta na sua água,
pouco mais te apazigua.

O que o amor leva,
o mar traz;
Respira fundo,
e terás a tua paz.



Como se explica o que é o Mar
a alguém que não sabe amar?

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